Para nós, infelizmente, foi apenas mais um acidente aéreo, mas para ele, Bruno Gouveia ( Biquini Cavadão) foi o acidente que tirou a vida de seu filho, seu anjo Gabriel.
Quando li esse relato não pude fazer outra coisa a não ser chorar... Chorar muito e pedir a Deus que conforte o coração desse pai e das famílias que perderam seus entes queridos.
O pior dia de minha vida
Caros amigos, parentes e fãs
Queria começar este post agradecendo a todos pela solidariedade,
pelas mensagens de carinho, força, amor, fé, esperança por dias
melhores. Em especial, meus familiares e toda equipe de minha banda, o
Biquini Cavadão. Meu irmão Fábio e meu amigo Antônio Bindi conseguiram
me isolar enquanto eu estava nos Estados Unidos para compor músicas pro
novo disco. Sem celular e acesso a internet, não soube do ocorrido.
Tinha acabado de chegar de Los Angeles em Nova Iorque. Eu e Coelho
pegamos vôos diferentes e nos encontramos no aeroporto. Era para
ficarmos três dias na cidade compondo com uma artista neozelandeza.
Entretanto, ao encontrar meu guitarrista ele me avisou que tínhamos de
voltar para “fazer um show muito importante”. Era cedo em Nova Iorque e
passamos o nosso único dia na cidade perambulando pelas ruas até a hora
de voltar para o aeroporto. Foi fundamental o seu cuidado comigo, me
isolando de possíveis brasileiros que pudessem me dar a trágica notícia.
Até no aeroporto, ele conseguiu que eu ficasse em uma sala VIP sem que
eu desconfiasse de nada. Ao mesmo tempo, minha namorada Izabella me
ocupava o tempo todo, distraindo-me com intermináveis ligações. Ela,
cantora da banda Menina do Céu, enviou uma substituta para seus shows e
ficou falando sem parar comigo, me distraindo carinhosamente. Por vezes,
eu dizia que estava cansado de falar e queria aproveitar a cidade. Ela
então enviava mensagens de texto para Coelho: “Ele cansou, agora, segure
as pontas!”. E assim, longas horas se passaram até que o avião
finalmente decolasse com destino ao Rio.
Ao chegar, fui recepcionado por uma delegação que cuidou de acelerar os
tramites com imigração e alfândega (agradeço ao Governador Sergio Cabral
por todo este cuidado). Nem assim, desconfiei. Pensava apenas “Nossa,
este show deve ser importante mesmo!”. Para evitar sair pela porta
principal, onde jornalistas nos aguardavam, me fizeram passar por trás,
saindo pelo desembarque doméstico, onde fui recebido pelo meu produtor.
Ele me recebeu correndo e me disse para entrar numa sala. Achei que,
pela pressa toda em me retirar do local, eu devesse entrar num taxi ou
ônibus para o local do show. Ouvi apenas, você tem que dar uma
entrevista para a TV Globo. E foi então que notei, ao entrar na sala,
que não havia show algum para ser feito, muito menos entrevista.
O primeiro que vi foi Miguel, tecladista do Biquini, mas logo estranhei a
presença de Izabella. Numa rápida passada de olhos, notei que meus
familiares estavam ali. Todos, menos meu pai.
- Eu já sei porque estou aqui. – tentei adivinhar
- Você sabe? – perguntou minha mãe, chorando
- Bruno, sente-se por favor – pedia meu irmão
- Meu pai….. – balbuciei
- Ele está bem, Bruno, seu pai está bem. – alguém que não me lembro, me avisou
Meu irmão insistiu para que eu sentasse enquanto começava a me dizer que uma imensa tragédia havia se abatido sobre nós.
- Gabriel ? – temi acertar
Então, meu irmão respirou fundo e me contou que Gabriel e a minha
ex-mulher Fernanda haviam morrido num desastre de helicóptero em
Trancoso. A irmã de Fernanda, Jordana, e seu filho Lucas, também
pereceram. Me contou tudo que houve, que Fernanda ainda chegou com vida à
praia mas faleceu no hospital.
- Eu não estou ouvindo isso – repetia
E os detalhes eram falados como um esparadrapo arrancado da pele: rapidamente e com muita dor.
- Meu anjinho…. – eu só conseguia dizer isso
E neste momento, Miguel, Birita, minha mãe, Izabella, todos me abraçaram
e choraram muito. Eu continuava com os olhos arregalados em total
choque. Magal, baixista, não parava de soluçar. Minha tia avó estava
inconsolável. Cada um ali sofria minha dor que estava apenas começando.
Com a fala ofegante, eu recusei os remédios, queria ter consciência
dos meus atos, e apenas pedi: por favor, me levem a eles. Uma van nos
esperava e fomos direto ao Cemitério São João Baptista. Fernanda e
Gabriel seriam sepultados juntos no jazigo da minha família.
Permaneci em total estado de choque. Pessoas me cumprimentavam. Colegas
de estrada, amigos de longa data, diversos parentes. Minha prima Regina
Casé me consolava, mas não era capaz de assimilar o que ela dizia.
Sheik, da primeira formação da banda, com quem não falava há muitos
anos, se reencontrou comigo. Jornalistas, músicos, primos que vieram de
outras cidades, além da sofrida família de minha ex-mulher velavam os
dois caixões. Não podia abri-los. No topo, apenas as fotos dos dois. O
dia estava bonito e tudo parecia uma cidade cenográfica. Eu certamente
acordaria deste sonho, acreditava. Em vão. A coroa de flores do Biquini
dizia “Hang on, Be Strong”. Que ironia! Eram os versos de uma música em
inglês que fizemos com a cantora Beth Hart em Los Angeles que diziam
Hang on, be strong/ sometimes life can slip away/
Segure firme, seja forte / Às vezes, a vida pode te escapar
Sem saber, havia composto nesta viagem a letra da música para me amparar!
Gabriel viveu 2 anos e dez meses. Tive a felicidade e honra de ser
mais que um pai. Eu me apelidava de “pãe”. Logo que ele nasceu, pedi à
mãe que, uma vez que a amamentação era um privilégio dela, que o banho
dele fosse o meu. E todos os dias eu o banhava, trocava suas fraldas,
ninava e o colocava para dormir. Viajava muito mas, em seguida, pegava o
primeiro voo para vê-lo acordar e poder passear na pracinha. Eu era o
único homem em meio a tantas mães e babás. Tive noites mal dormidas,
traduzi-lhe com beijos o que diziam as palavras. Igualmente era o único
pai nas aulas de natação para bebês. Participei de cada momento de sua
vida com um mergulho intenso e de cabeça.
Fernanda foi minha mulher e companheira por dez anos, convivendo numa
querida família. Em 2007, decidimos ter nosso filho e ele nasceu no dia
dos pais – o maior presente que poderia receber. Por sorte ou
coincidência, não tive show no dia e pude vê-lo nascer. Infelizmente,
nosso relacionamento passou por crises que culminaram com nosso
afastamento como casal. Divórcios sempre são estressantes mas acreditava
que o tempo curaria as feridas e seríamos bons amigos.
Nós dois éramos muito ligados ao Gabriel e eu era um pai coruja que
beirava o chato. Meu único assunto era ele. Os fãs se deliciavam,
enquanto eu mostrava fotos mais recentes. Também fiz vários videoclipes
e, junto com minha ex-mulher, postamos tudo no blog
http://mimevoce.blogspot.com contando desde a gestação, passando pelo nascimento e por todos os detalhes do seu dia a dia.
Perdi duas pessoas que marcaram minha vida. E quando o padre
perguntou no velório se alguém queria dizer algo, eu levantei o braço.
Tirei todas as forças de dentro de mim e cantei:
Tudo que viceja, também pode agonizar… e perder seu brilho em poucas semanas….
E não podemos evitar que a vida / trabalhe com o seu relógio invisível/ tirando o tempo de tudo que é perecivel
Entre soluços e lágrimas, muitos presentes me acompanharam ao som de Impossível, sucesso do Biquini Cavadão.
O detalhe é que cantei “é impossível esquecer
vocês”
Ao enterra-los, veio então a difícil tarefa de voltar pra casa e ver
seus brinquedos, roupas, abrir a mala e ver tudo que comprei para ele. A
palavra para definir o sentimento desde então é DOR. Não uma dor
latente, insistente ou aguda. É uma dor que te assalta, te maltrata e te
exaspera.
Continuava chorando pouco. Só dizia para todos: “O que está acontecendo
comigo? Dediquei minha vida a alegrar as pessoas, por que motivo agora
tiram de mim a maior alegria de minha vida”? Incapaz de desabafar,
decidi provocar o meu choro. Vi vários vídeos de meu filho, um após o
outro, até que veio o grito, a dor, como uma erupção vulcânica. Urros
ensurdecedores. Os vizinhos batiam à porta perguntando o que fazer para
me consolar. Minha mãe em prantos, Izabella me confortando sem parar.
Foi horrível, mas me senti aliviado ao conseguir. Outros descarregos
deste tipo vieram ao longo da semana.
Tenho dois shows neste sábado e domingo. Depois de muito pensar,
decidi fazê-los. Chamei meu amigo Marcelo Hayena, do Uns e Outros. Ele
estará por perto, caso me falte a voz. Ainda assim, estou confiante em
cantá-lo até o fim. O motivo é simples. Meu filho nunca viu um show meu,
por ser muito pequeno. Agora, ele tem cadeira cativa. E quero fazer
para o meu Gabriel, o show mais lindo do mundo. E assim serão todos que
eu puder fazer pro resto de minha vida!
Obrigado a todos pela força. Não consegui ler nem metade dos recados,
mas deixo aqui o meu muito obrigado emocionado e meu consolo a todos
que pereceram no desastre, em especial minha querida Jordana e meu
sobrinho Luquinha.
Foi o pior dia de minha vida, mas cada reza, energia, força, recado,
me amparou muito. Ainda sofro mas, de agora em diante, terei de viver um
dia de cada vez.
Beijem seus filhos com carinho e fiquem com Deus.
Bruno Gouveia
Fonte: http://biquinicavadao.uol.com.br/blog/?p=1609